A incrível história do vazio: do “horror vacui” à física quântica

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Aristóteles afirmava que a natureza abomina o vazio, o famoso “horror vacui”, e, por séculos, ninguém ousou contradizê-lo: acreditava-se que, se surgisse um vazio, a matéria o preencheria imediatamente. Mas, se você respirar fundo hoje, estará usando um vazio para sobreviver: seus pulmões se beneficiam do fato de que o ar, embora invisível, está repleto de moléculas que se movem de um lado para o outro. Todo mundo acha que o vazio é o oposto da matéria, um nada absoluto. O surpreendente é que, quanto mais a Física avança, mais descobrimos que o vazio está repleto de coisas — e que ele é uma das chaves para entendermos o universo. Há quatro séculos, Galileu se deparou com um limite: usando bombas de sucção, a água não subia mais do que 10 metros nos poços. Por quê? Seu aluno Torricelli criou um experimento com um tubo de mercúrio: ao virá-lo de cabeça para baixo, o mercúrio descia e deixava um espaço transparente na parte superior, o famoso “vazio de Torricelli”. Mas esse espaço não era causado pela sucção, e sim pelo peso do ar: a atmosfera pressionava por fora e sustentava a coluna. Assim nasceu o barômetro e a certeza de que o ar tem peso. Pascal confirmou isso em 1648, quando seu cunhado levou o barômetro até o Puy de Dôme e observou que, quanto maior a altitude, menor a pressão: a atmosfera é finita, não infinita. Depois, em 1654, Otto von Guericke pegou dois hemisférios de metal, extraiu o ar e pediu a duas parelhas de cavalos que puxassem em direções opostas. Mesmo assim, não conseguiram separá-los, porque o vácuo no interior fazia com que a pressão atmosférica os mantivesse unidos. Boyle e Hooke aperfeiçoaram as bombas de vácuo: Boyle tocou sinos, acendeu velas e colocou animais em recipientes sem ar. O sino não tocava, a vela se apagava e os ratos não respiravam. O vácuo deixou de ser apenas uma ideia filosófica para se tornar uma realidade tangível — e até inspirou pinturas como “Experimento com um pássaro na bomba de vácuo”, de Joseph Wright of Derby. Posteriormente, o vácuo se tornou essencial para a ciência: sem tubos de vácuo, Röntgen não teria descoberto os raios-X em 1895, pois os elétrons só passam por esses tubos se o ar tiver sido quase totalmente removido. Mas a verdadeira virada veio com a física quântica. Na visão clássica, vácuo significa ausência de matéria. Para a teoria quântica de campos, por outro lado, o vácuo é o estado de energia mais baixo dos campos fundamentais e, mesmo assim, está repleto de atividade: flutuações quânticas, pares de partículas virtuais que aparecem e desaparecem em um piscar de olhos. Elas não podem ser vistas, mas seus efeitos, sim. O exemplo principal: o efeito Casimir, previsto em 1948 e medido em 1997. Se você colocar duas placas de metal quase coladas uma na outra no vácuo, as flutuações quânticas entre elas serão menores do que fora delas. Resultado: uma pressão misteriosa empurra as placas, como se o vácuo exercesse força. É como uma corda de violino: dependendo de como você a segura, apenas certas notas vibram. Portanto, o vácuo quântico tem propriedades físicas reais. Hoje, o vácuo está no cerne da física mais moderna: o campo de Higgs, que dá massa às partículas; a constante cosmológica, que impulsiona a expansão acelerada do universo; e a eletrodinâmica quântica, uma das teorias mais precisas da história. O irônico é que Aristóteles errou nos detalhes, mas acertou na essência: o vazio nunca foi simplesmente nada, mas sim um protagonista oculto da realidade. Agora, pense no seguinte: da próxima vez que você vir um espaço aparentemente vazio, lembre-se de que ele pode estar mais repleto de física do que qualquer coisa visível. Se, depois de ouvir isso, você sentir que sua ideia de vazio mudou, no Lara Notes, pode marcar com I'm In — não é um “curtir”, é uma maneira de dizer: agora essa perspectiva é sua. E, se você acabar contando a história dos hemisférios de Magdeburgo ou do efeito Casimir para alguém, poderá registrar isso com o Shared Offline: assim, a conversa que torna a ciência real fica guardada. Este conteúdo é do The Conversation e, com esta Nota, você economizou quase quatro minutos de leitura.
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