Anton Dolin sobre a melhor adaptação cinematográfica do romance "maldito"
Russianto
A ousadia mágica do novo “Mestre e Margarida”.
Uma onda de fascínio e polêmica varre o país com a chegada da recente adaptação cinematográfica de “Mestre e Margarida”, obra-prima de Bulgákov há décadas tida como “maldita”, impossível de ser traduzida em imagens. Contra todas as expectativas, surge um filme grandioso, com efeitos especiais impactantes, elenco internacional e, acima de tudo, uma liberdade criativa que escancara portas para o inesperado. O diretor, moldado por uma vivência entre culturas, oferece um olhar estrangeiro e ao mesmo tempo profundamente russo, criando uma Moscou paralela, onírica, entre o real e o imaginário — tão reconhecível quanto inquietante.
No coração do filme, a história do escritor proibido e da sua musa ganha nova centralidade. O mestre, agora protagonista desde os primeiros momentos, costura as três realidades clássicas do romance: a visita de Satã a Moscou e sua trupe de personagens inesquecíveis; a paixão avassaladora entre Mestre e Margarida, marcada pelo desafio, loucura e redenção; e os ecos bíblicos do drama entre Pôncio Pilatos e Iéshua, tratados aqui com uma brevidade que, longe de esvaziar o peso das cenas, as integra organicamente à narrativa principal.
A liberdade é a tônica. O filme não se prende à literalidade do texto e ousa cortar, sintetizar, inverter — e assim encontra ritmo, humor ácido, dinamismo e até tragédia, sem jamais perder o espírito carnavalesco e satírico de Bulgákov. O elenco brilha: Mestre e Margarida são retratados com uma intensidade raramente vista, e o próprio Satã, estrangeiro e sedutor, ganha contornos inéditos, distantes da tradição russa de um Voland quase paternal. Os personagens secundários, ainda que alguns reduzidos ou transformados, povoam essa Moscou imaginária com energia teatral e simbolismo.
No plano visual, a Moscou do filme é um espetáculo à parte: monumental, estilizada, cheia de referências arquitetônicas e históricas, mas sempre atravessada pelo voo livre de Margarida, símbolo da liberdade sonhada e inatingível. A trilha sonora oscila entre o sinfônico grandioso e um jazz quase demoníaco, reforçando o tom ambíguo entre o sagrado e o profano.
E se há quem se irrite ou se escandalize com as liberdades tomadas, é porque o filme toca fundo na ferida da censura, do medo, da traição e da luta pela sobrevivência do artista e da imaginação em meio ao autoritarismo — temas que, de repente, voltam a ser urgentes e reais. As linhas entre ficção, memória e presente se confundem: a perseguição do Mestre ecoa as tentativas recentes de calar vozes incômodas, e a Moscou de hoje, com seus desfiles, festas e disputas de poder, se vê refletida no espelho distorcido da fantasia.
O novo “Mestre e Margarida” não busca agradar a todos. Ele provoca, desafia, ri do medo, voa acima das convenções — e finalmente faz jus à maldição e ao poder libertador do romance original. Uma adaptação que não teme a heresia, mas celebra a magia do risco e da reinvenção.
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