Arábia Saudita: por trás dos influenciadores, o reino do medo | Fontes | ARTE

Frenchto
O reino do paradoxo: entre cliques, repressão e silêncio na Arábia Saudita. Imagine um cenário de tirar o fôlego: deserto dourado, arquitetura futurista, festas e influenciadores sorrindo para a câmera enquanto desfilam por paisagens surpreendentes. Desde 2020, a Arábia Saudita se lança ao mundo como o novo destino exótico, promovido com entusiasmo por centenas de influenciadores, todos cuidadosamente selecionados e supervisionados. As imagens mostram um país que se abre, onde mulheres dirigem e turistas se encantam com a transformação cultural. O que as lentes não mostram é o preço real desse novo brilho. O roteiro desses influenciadores é orquestrado nos mínimos detalhes. O conteúdo publicado precisa ser aprovado, as mensagens são padronizadas e a narrativa é sempre de otimismo e modernidade. Por trás dessa vitrine reluzente, há regras rígidas e vigilância constante. Enquanto se investe em projetar uma imagem progressista para o exterior, quem se manifesta nas redes sociais dentro do país enfrenta riscos altíssimos: prisão, sentenças escandalosamente longas e um Estado que equipara críticas públicas a terrorismo. Histórias de quem ousou desafiar o consenso imposto ilustram o clima de medo. Uma jovem coach de fitness, ativa nas redes sociais e engajada nas pautas feministas, foi condenada a 11 anos de prisão por pedir o fim da tutela masculina e vestir-se de maneira “indecente”. Um colaborador da Wikipédia que criou páginas sobre direitos humanos e ativistas está preso há mais de três décadas. Há quem tenha sido condenado a 27 anos por um simples tuíte pedindo liberdade para prisioneiras do patriarcado. As leis são vagas, permitindo enquadrar quase qualquer crítica como um atentado à ordem ou à moral. O aparato repressivo não se esconde, ao contrário: entrevistas televisionadas mostram internautas confessando arrependimento por críticas feitas, alertando que qualquer palavra dita fora do script pode custar a liberdade. Mesmo após cumprir a pena, muitos continuam proibidos de sair do país, alguns monitorados por pulseiras eletrônicas, todos sob ameaça de novas retaliações. Em meio a esse cenário, o país recebe grandes fóruns internacionais sobre governança da internet, ironicamente a poucos quilômetros de onde estão presos os mesmos ativistas que o evento diz defender. Tentativas de denunciar a situação dentro desses eventos são censuradas ao vivo. Flyers são confiscados, vídeos são editados, e a repressão segue, agora sob holofotes globais. Apesar de algumas libertações recentes, a mordaça permanece. Quem sai da prisão encontra portas fechadas para o mundo, privado para sempre do direito de expressão e de ir e vir. O discurso oficial exalta direitos humanos, justiça e dignidade, enquanto o país figura entre os líderes mundiais em execuções e mantém um número desconhecido de presos por delitos de opinião. A Arábia Saudita de hoje desfila para o mundo uma máscara moderna e sorridente, mas por trás dela, o silêncio é imposto pelo medo.
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