Como a Europa se regulou até se tornar vassala dos Estados Unidos
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Imagine um continente onde, para transferir dinheiro entre dois vizinhos, é necessária a permissão de duas empresas americanas. Ou onde os dados de milhões de cidadãos, desde mensagens privadas até estratégias empresariais, passam todos os dias pelos servidores californianos do Google ou da Apple. Parece ficção científica, mas esta é a Europa de hoje: o coração tecnológico e financeiro da sua economia agora bate do outro lado do oceano. Essa tese parece absurda: crescemos acreditando que a Europa, com suas regras rígidas, protegia os cidadãos dos excessos das grandes empresas, especialmente das americanas. Na verdade, foram exatamente essas regras que criaram a dependência que se pretendia evitar. Quanto mais a União Europeia restringia o mercado com regras, menos espaço restava para o surgimento de gigantes locais. O resultado? No bolso de qualquer pessoa, de Dublin a Dubrovnik, há um smartphone projetado nos Estados Unidos, provavelmente pago com um cartão Visa ou MasterCard, e alimentado por gás liquefeito produzido nos EUA. Por trás dessa colonização silenciosa, há rostos específicos. Veja Sundar Pichai, CEO do Google, que, em uma conferência em Bruxelas, disse: “As regras europeias estão entre as mais rigorosas do mundo. Mas, de qualquer forma, estamos prontos para investir aqui.” Era uma mensagem tranquilizadora, mas, nas entrelinhas, havia um desafio: as empresas americanas são as únicas com estrutura suficiente para lidar com a complexa regulamentação europeia. Enquanto isso, em uma pequena startup em Tallinn, o fundador conta que obter uma licença de fintech na Europa leva anos e custa centenas de milhares de euros em consultoria jurídica. Já nos Estados Unidos, a Stripe nasceu em uma garagem e, após poucos meses, já administrava pagamentos para milhões de usuários. Em 2024, a Visa e a MasterCard processavam mais de 90% das transações digitais entre cidadãos europeus, de acordo com dados do setor. E, após o corte do gás russo, 60% das necessidades energéticas importadas vêm dos Estados Unidos na forma de gás liquefeito. Não se trata apenas de uma questão de comércio: isso significa que todas as decisões estratégicas sobre privacidade, energia ou finanças passam por Washington e pelo Vale do Silício. O verdadeiro paradoxo é que as regras criadas para proteger a Europa acabaram esvaziando o mercado interno e abrindo caminho para as gigantes americanas. Mas há uma pergunta que poucas pessoas se fazem: o que acontece se, um dia, essas empresas decidirem fechar as torneiras? A lição alternativa, raramente discutida, é a seguinte: a obsessão pela regulamentação pode ser um presente inesperado para os concorrentes estrangeiros. Para cada regra que dificulta a vida das empresas locais, há uma multinacional que já conta com o advogado certo e com recursos suficientes para se adaptar. Mais barreiras, menos inovação europeia. A Europa não se tornou uma colônia americana por preguiça, mas por excesso de zelo regulatório. Fechar o mercado nem sempre protege: às vezes, isso significa entregar as chaves da casa para quem já venceu em outro lugar. Se você quiser que essa ideia continue sendo sua, no Lara Notes, pode clicar em I'm In — é a sua maneira de dizer que agora essa perspectiva diz respeito a você. E se, daqui a uma semana, você se pegar contando a alguém que, na Europa, até para pagar um café é preciso um cartão americano, pode voltar aqui e marcar essa pessoa com Shared Offline: porque certas conversas precisam ser interrompidas, não deixadas escapar. Esta história foi publicada no The Economist e poupou quase quatro minutos do seu tempo em comparação com o artigo original.
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