Jana Antonissen sobre o poliamor

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Poliamor, Espelhos e a Busca Infinita por Si Mesmo. A ideia do poliamor costuma ser apresentada como um salto evolutivo: liberdade, alegria, consentimento mútuo. Mas será que conseguimos, de fato, desmontar nossos medos mais primitivos? O texto propõe um mergulho íntimo e filosófico nos labirintos do desejo, dos limites do eu e da convivência amorosa em múltiplas direções. Tudo começa diante do espelho, quando a narradora se depara com uma estranha – uma mulher mais velha, parecida consigo mesma, que compartilha memórias de amores intensos e consequências igualmente dramáticas. O encontro desencadeia uma reflexão sobre identidade: quem somos de verdade, e o quanto do que vemos é apenas reflexo de expectativas e ideais alheios? Essa inquietação ecoa na teoria psicanalítica, em especial nos pensamentos de Lacan, que via no reconhecimento do próprio reflexo um momento de alienação e distanciamento. O eu nunca é pleno; somos marcados por uma falta constitutiva e por um desejo impossível de satisfazer. O desejo pelo outro, a vontade de ser visto por novos olhares, parece tanto natural quanto fadada ao fracasso – a tentativa de fundir-se ao outro deixa sempre um vazio. No campo experimental dos relacionamentos abertos, a promessa de estabilidade sem tédio e liberdade sem angústia logo se mostra mais complexa do que sugerem os manuais de autoajuda. Regras tentam organizar o caos dos desejos, mas rapidamente se desmancham diante da realidade mutável das emoções. O que parecia libertador, por vezes, se transforma em confusão, ciúmes e até mesmo um estranho prazer na própria dor, como se estivéssemos sempre à beira do abismo entre o conhecido e o estranho. A ficção científica entra como laboratório de possibilidades: universos onde a poliamoria é norma, onde casamentos múltiplos são institucionalizados. Mas mesmo nessas sociedades imaginárias, nem tudo são flores; o equilíbrio entre tantos desejos e expectativas revela-se delicado, e o anseio pela exclusividade ressurge, seja por imposição social, seja por pura exaustão. O texto se debruça sobre o ponto em que o estranho invade o cotidiano. Vê-se a si mesma substituída por uma versão mais jovem, menor e aparentemente melhor de si própria – o duplo, tema clássico do terror psicológico, encarna a angústia fundamental de ser desbancado, trocado. O ciúme, a sensação de inadequação e até a agressividade contra o “intruso” são apresentadas como sintomas universais, quase inevitáveis, dessa experiência. Por trás das experiências amorosas, o que emerge é uma busca incessante por significado, por pertencimento, que nunca se resolve de forma definitiva. Cada modelo de relacionamento – aberto, fechado, múltiplo, exclusivo – oferece promessas e armadilhas próprias. Somos, no fundo, criaturas de desejo e de falta, sempre à procura do impossível: ser únicos e, ao mesmo tempo, insubstituíveis. A imagem final da serpente que devora a própria cauda, o uroboro, simboliza essa circularidade inevitável: não há solução definitiva, apenas o eterno retorno ao confronto com as próprias ilusões e limitações. Seja no poliamor ou na monogamia, permanece a pergunta: é possível, algum dia, encontrar o encaixe perfeito entre mentalidade, momento e pessoa? Ou estamos todos, em maior ou menor grau, fadados a perseguir sombras de nós mesmos nos olhos dos outros?
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Jana Antonissen sobre o poliamor

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