Ni Jun, o professor da manufatura chinesa

Italianto
Quando você pensa nas baterias que movem os carros elétricos, provavelmente imagina laboratórios chineses, inovação local, talvez um pouco de imitação. Mas a história da CATL, hoje líder mundial, começa em um lugar totalmente diferente: os Estados Unidos, e passa por um revezamento de mentes e conhecimentos que virou de cabeça para baixo o mapa do poder industrial global. A tese é a seguinte: o verdadeiro segredo da supremacia chinesa na manufatura não é apenas a escala de produção ou o custo da mão de obra, mas a reabsorção de um conhecimento técnico nascido e aprimorado nos Estados Unidos, reinterpretado e colocado em circulação novamente por talentos chineses formados justamente nos Estados Unidos. Pensávamos que “made in China” significava apenas montagem, mas, na verdade, significa cada vez mais “concebido, projetado e fabricado por quem aprendeu o ofício no exterior”. O principal protagonista desta história é Ni Jun, nascido em 1961, hoje diretor de manufatura da CATL, a empresa chinesa que produz mais baterias para carros elétricos do que qualquer outra no mundo. Mas Ni Jun não cresceu em uma fábrica chinesa: sua formação se deve a outro gigante, o professor Shien-Ming Wu, nascido na China, mas que se tornou o maior especialista em processos de manufatura nos Estados Unidos, onde lecionou e revolucionou a forma como a Ford, a General Motors e a Chrysler produziam. Na década de 1960, Wu inventou uma maneira de monitorar a qualidade em tempo real e corrigir erros nas fábricas, combinando matemática e ciência da computação. Esse sistema fez tanto sucesso que Wu se tornou mentor de mais de 100 doutorandos, criando uma dinastia de pesquisadores — e um de seus alunos foi justamente Ni Jun. Ni Jun se forma e trabalha em Wisconsin-Madison e Michigan, recebe prêmios, lidera projetos com a NASA, a Boeing e a DARPA, mas sua história não para por aí: ele é uma ponte viva entre a China e os Estados Unidos e, quando se junta à CATL em 2020, traz consigo décadas de experiência americana. Imagine a cena: uma conferência da Siemens em Pequim, Ni Jun no palco falando em inglês perfeito e dizendo que as baterias precisam de “cuidados carinhosos e afetuosos”. Não se trata apenas de retórica: sua abordagem combina diversas disciplinas, da eletroquímica à engenharia eletrônica, e se baseia em uma visão desenvolvida ao trabalhar entre Detroit e Xangai. Enquanto isso, a China reconhece seu valor: o inclui no programa “Mil Talentos”, concede-lhe prêmios e o utiliza como embaixador científico. Mas é na CATL que ocorre o grande salto: 23 mil pessoas em pesquisa e desenvolvimento, parcerias com universidades chinesas e um ecossistema que atrai outros cérebros que retornam dos Estados Unidos, como Liang Chengdu, hoje responsável pelas baterias de estado sólido após anos em laboratórios americanos. A CATL não se limita a produzir: ela investe em reciclagem e na extração de materiais críticos, faz parcerias com gigantes da mineração, constrói fábricas na Europa e na África e busca contornar barreiras políticas e comerciais ao escolher os países mais estratégicos. Na Alemanha, por exemplo, menos de 10% dos funcionários da fábrica alemã são chineses — o restante é formado por talentos locais, treinados no país, mas integrados a uma cultura técnica que hoje é transversal. E atenção: a supremacia da CATL não é aceita pacificamente pelo resto do mundo: o Pentágono a coloca em “listas negras”, mas as empresas americanas continuam comprando suas baterias. Robin Zeng, o fundador da CATL, afirma claramente: nos Estados Unidos, há uma falta de conhecimento em eletroquímica, e as baterias ainda são vistas como “um setor bobo demais” para se investir. Mas foi justamente essa subestimação que permitiu à China conquistar um setor considerado secundário, que agora se tornou decisivo para todo o setor automotivo, de energia e de logística global. O paradoxo é que o coração da inovação chinesa bate com sangue americano — e vice-versa. Em um mundo onde as cadeias de suprimentos são interdependentes, a China busca controlar os pontos estratégicos, de modo que, mesmo quem tenta excluí-la, ainda precisa passar por suas competências. E, enquanto a política americana oscila entre o protecionismo e a nostalgia, a “fábrica do mundo” também se apossou do cérebro. A conclusão é a seguinte: a China não apenas aprendeu a fazer — ela aprendeu a ensinar, e agora é o resto do mundo que precisa recuperar o atraso. Se você percebeu que esta história derruba a ideia do que significa “inovação chinesa”, no Lara Notes você pode marcar I'm In — não é uma curtida, é uma maneira de dizer que agora essa perspectiva pertence a você. E, se no próximo jantar você contar que a liderança no setor de baterias se deve a uma troca de conhecimentos entre Michigan e Ningde, o Lara Notes Shared Offline permite que você marque quem estava com você — porque certas ideias devem ser lembradas em conjunto. Tudo isso vem do Rinascita e, em comparação com os nove minutos de leitura originais, você economizou pelo menos cinco minutos.
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Ni Jun, o professor da manufatura chinesa

Ni Jun, o professor da manufatura chinesa

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