O fim da paz mais longa?
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O frágil legado da longa paz.
Por quase oitenta anos, o mundo testemunhou um fenômeno extraordinário: a ausência de guerra entre as grandes potências. Esse período de "longa paz" se destaca como uma anomalia histórica, especialmente quando comparado à violência que moldou os séculos anteriores. A devastação de duas guerras mundiais forçou os líderes a imaginar uma nova ordem, que evitaria deliberadamente a repetição dos mesmos erros catastróficos. Das cinzas, eles construíram estruturas e alianças internacionais, gerenciaram ameaças nucleares e promoveram a cooperação global, tudo em um esforço para evitar outra rodada de conflitos entre grandes potências.
Três números resumem essa conquista: oitenta anos desde a última grande guerra entre grandes potências, oitenta anos desde que as armas nucleares foram usadas em combate e apenas nove países possuem arsenais nucleares — muito menos do que se temia. Esses marcos permitiram que a população mundial triplicasse, a expectativa de vida aumentasse e as economias florescessem. No entanto, essa paz não aconteceu por acidente ou simplesmente por sorte. Ela exigiu diplomacia ousada, resolução criativa de problemas e, em momentos cruciais, cooperação até mesmo entre rivais.
A Guerra Fria, com sua doutrina de destruição mútua garantida, estava no centro da manutenção desse equilíbrio instável. A ameaça de aniquilação nuclear forçou ambos os lados a priorizar a sobrevivência em detrimento da ideologia. Enquanto isso, iniciativas abrangentes ajudaram a reconstruir economias, incentivar o desenvolvimento e promover a cooperação baseada em regras. Quando a União Soviética entrou em colapso, o mundo enfrentou um novo teste: impedir a disseminação de armas nucleares entre os novos Estados independentes. Por meio de parcerias determinadas e políticas pragmáticas, milhares de armas nucleares foram protegidas e desmontadas, evitando o caos por pouco.
Mas hoje, essa longa paz está sob ameaça. A memória coletiva dos horrores da guerra está desaparecendo, especialmente entre as gerações mais jovens. À medida que nações como a China se erguem e desafiam a ordem estabelecida, as tensões aumentam. A Rússia, ainda armada com um formidável arsenal nuclear, está determinada a afirmar sua influência, mesmo que pela força. O cenário econômico também mudou: o domínio outrora esmagador dos Estados Unidos diminuiu, dando lugar a um mundo multipolar onde nenhum país pode definir as regras unilateralmente.
Internamente, divisões políticas profundas corroem a capacidade de agir de forma decisiva no cenário global. O excesso de poder militar em conflitos de importância secundária desviou a atenção e os recursos de ameaças mais urgentes. Enquanto isso, o tabu global contra o uso nuclear, que sobreviveu a situações de risco e perigosas, está mostrando sinais de tensão à medida que novas crises surgem.
A questão agora é se o mundo pode reunir a imaginação e a determinação para preservar esta era excepcional de paz. A história nos alerta que esses períodos são passageiros, desfeitos pela rivalidade, pela complacência e pela incapacidade de se adaptar. O desafio é aprender com o passado, reconhecer os perigos do presente e convocando a visão estratégica necessária para manter a paz duradoura viva para as gerações futuras.
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O fim da paz mais longa?