Os computadores quânticos podem desencadear uma crise pior do que a do milênio
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Em 2029, podemos acordar e descobrir que a segurança digital global foi violada sem que nenhum alarme tenha soado. Não é um cenário de filme: especialistas do Google e de outras gigantes da tecnologia afirmam que, em poucos anos, os computadores quânticos serão capazes de decifrar os códigos que hoje protegem tudo, desde cartões de crédito até comunicações militares. Tudo isso pode acontecer de repente e sem aviso prévio, ao contrário do famoso bug do milênio, o Y2K, que pelo menos tinha uma data fixa para nos prepararmos. A tese é a seguinte: o risco do “Q-Day”, o dia em que um computador quântico quebrará a criptografia atual, é muito mais sutil e devastador do que imaginamos, justamente porque ele pode já estar acontecendo e ninguém perceber. Acredita-se que a segurança digital seja uma questão técnica reservada aos especialistas, mas, se a criptografia cair, a confiança que sustenta todo o nosso mundo digital também desmorona: bancos, hospitais, governos e até mesmo nossas conversas privadas. Philip Intallura, do HSBC, afirma sem rodeios: “Quem começar a se preparar agora estará em uma posição muito diferente de quem ficar esperando.” E Ramana Kompella, da Cisco, alerta: “O momento certo para proteger as infraestruturas foi ontem.” Para entender o quão real é a ameaça, basta observar a corrida que se desencadeou entre as empresas. Rebecca Krauthammer, que lidera uma empresa especializada em criptografia pós-quântica, conta que, nos últimos meses, as solicitações das empresas aumentaram dez vezes. “É um dos momentos de virada mais significativos que já vi”, afirma ela. Bancos e gigantes das telecomunicações já estão trabalhando para atualizar seus sistemas, mas muitos hospitais estão atrasados. E os custos são enormes: Krauthammer acompanha três empresas que gastarão pelo menos US$ 100 milhões cada uma na transição para a nova criptografia, em um processo que pode levar até dez anos. A ameaça não é apenas teórica: já existem hackers que coletam dados criptografados hoje, na esperança de poder descriptografá-los amanhã, quando os computadores quânticos estiverem prontos. Isso se chama “harvest now, decrypt later” — colete agora, descriptografe depois — e representa um risco real para tudo o que hoje consideramos seguro, desde prontuários médicos até chaves de lançamento de mísseis. E qual é a verdadeira diferença em relação ao Y2K? Aquele era um problema iminente com uma data específica: 1º de janeiro de 2000. Já o Q-Day pode acontecer a qualquer momento e, pior ainda, ninguém percebe até que seja tarde demais. Uma das áreas mais vulneráveis são as criptomoedas. O Google e a Ethereum Foundation previram que o primeiro sinal da chegada do Q-Day poderia ser o roubo repentino de grandes quantidades de Bitcoin. Nesse caso, não há uma autoridade central que possa impor novas regras de segurança: tudo se move lentamente e, enquanto isso, fundos de pensão, organizações sem fins lucrativos e empresas já investiram bilhões nessas moedas digitais. Após as últimas pesquisas, algumas criptomoedas que já adotam sistemas mais seguros subiram 50% em um único dia. Martin Charbonneau, da Nokia, ressalta que atualizar um aplicativo como o Signal ou o Chrome é apenas parte do problema: alterar a segurança de todo um ecossistema digital, muitas vezes desenvolvido com softwares antigos e do qual ninguém conhece todos os detalhes, é um desafio quase impossível. E, embora as grandes empresas tenham equipes internas, a maioria das organizações terá que se virar sozinha. O paradoxo é que a solução — a criptografia pós-quântica — já existe, mas cabe aos cidadãos exigir que ela seja usada. Krauthammer insiste: “Se quisermos confiar que nossos dados permanecerão seguros hoje e no futuro, precisamos exigir que as empresas adotem a nova criptografia.” Há um aspecto que quase ninguém leva em consideração: mesmo que amanhã todos os bancos atualizassem seus sistemas, os dados roubados hoje poderiam ser decifrados daqui a alguns anos. Portanto, o tempo que perdemos hoje, pagaremos amanhã, com juros. Não se trata de medo do futuro, mas de uma corrida que já começou. No final, a frase que resta é esta: o verdadeiro perigo não é que o Q-Day chegue, mas que não percebamos quando ele chegar. Se esta história diz respeito a você, no Lara Notes você pode clicar em I'm In — não é uma curtida, é a sua maneira de dizer: agora essa ideia é minha. E, se por acaso você conversar sobre isso com alguém, no Lara Notes poderá marcá-lo com Shared Offline: isso significa que aquela conversa realmente importou. Esta Nota foi criada a partir de um artigo da New Scientist e economizou mais de 12 minutos do seu tempo em comparação com o artigo original.
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