Paquistão, uma potência nuclear sob pressão | ARTE
Geopolitics
Frenchto
Paquistão: Entre a Bomba Atômica e o Vulcão Interno.
No coração do sul da Ásia, o Paquistão pulsa como um país jovem, empobrecido e permanentemente à beira do abismo. Com mais de 240 milhões de habitantes, a imensa maioria muçulmana, o país nasceu do sonho de ser um lar seguro para as minorias religiosas marginalizadas do antigo Império Britânico, mas acabou se convertendo numa nação onde o Islã é lei e a laicidade se perdeu pelo caminho. O resultado é um cenário onde as minorias vivem sob constante ameaça, e leis como a do blasfêmia, herdadas do colonialismo e reforçadas ao longo das décadas, alimentam tanto a justiça popular violenta quanto a repressão estatal.
Desde a separação sangrenta com a Índia, em 1947, e a perda do atual Bangladesh, a identidade nacional paquistanesa se forjou no confronto – especialmente em torno da disputa pelo Cachemira, território que permanece como uma ferida aberta. Ali, fronteiras se abrem e se fecham ao som de rituais militares, enquanto trocas de tiros e atentados deixam claro que a paz é sempre provisória. O Paquistão, que se autoproclama guardião dos muçulmanos da região, jamais aceitou a soberania indiana sobre a parte do território majoritariamente muçulmana, e vê na rival Índia seu inimigo existencial.
No centro desse tabuleiro está o arsenal nuclear. O trauma da guerra perdida contra a Índia em 1971 levou o Paquistão a mergulhar num programa atômico clandestino, que só veio a público em 1998. Desde então, a bomba é símbolo maior de dissuasão, orgulho nacional e poder militar, mas também fonte permanente de preocupação global: quem controla essas armas num Estado marcado por crises políticas, golpes militares e infiltração islamista? Se por fora o sistema de segurança é rígido e laico, por dentro paira o receio de que, em meio a uma convulsão, ogivas possam cair em mãos erradas.
O poder militar não se limita ao campo de batalha. No Paquistão, o exército é a força central da vida política e econômica. Nenhum governo se sustenta sem o apoio dos generais. Eles comandam negócios, bancos, hospitais, controlam vastas áreas urbanas e rurais, e criaram para si uma bolha de privilégios — enquanto a grande maioria da população amarga a pobreza, a falta de perspectivas e o peso de uma economia estagnada. A juventude, que deveria ser motor de transformação, é obrigada a trabalhar cedo, tem acesso precário à educação e vê, nas escolas religiosas gratuitas, um refúgio que também pode ser porta de entrada ao fundamentalismo.
Esse fundamentalismo não é acidente de percurso. Ele foi cultivado durante a ditadura de Zia-ul-Haq, que islamizou as instituições, reintroduziu a sharia e apoiou a resistência afegã contra a invasão soviética. O apoio paquistanês aos mujahidin, seguido dos talibãs, criou um legado de violência que regressa como bumerangue, especialmente após o 11 de setembro e a instabilidade contínua no vizinho Afeganistão. Hoje, grupos extremistas desafiam o Estado, promovendo atentados contra minorias religiosas e civis, enquanto alguns líderes islâmicos sonham em transformar o Paquistão em um califado.
As contradições do país se aprofundam diante de desafios globais. O Paquistão figura entre as nações mais vulneráveis às mudanças climáticas: ondas de calor extremo, inundações catastróficas e o derretimento acelerado dos glaciares ameaçam o sustento de milhões, especialmente nas áreas rurais. Apesar do risco iminente, a classe dirigente permanece inerte, concentrada em sua sobrevivência política e dependente de investimentos externos para evitar o colapso econômico.
Hoje, as ruas fervilham de insatisfação. Figuras como Imran Khan, que prometeu um novo horizonte aos jovens, desafiam o sistema, mas acabam silenciadas ou encarceradas, vítimas de um jogo político onde a última palavra é sempre dos militares. Enquanto os generais se apresentam como guardiões nacionais, o povo busca esperança em promessas não cumpridas, tentando sobreviver entre a pobreza, a insegurança e o medo constante de ver sua terra explodir — seja por dentro, seja pelas forças que a rodeiam.
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