Por que alguns animais conseguem regenerar patas inteiras e os mamíferos não?
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Se você cortar a perna de uma salamandra, em alguns meses crescerá outra, perfeita e funcional. Mas, se um ser humano perde um braço, o máximo que pode esperar é uma cicatriz. Por que uma diferença tão drástica, se compartilhamos tanto DNA? A resposta tradicional é: porque, ao longo da evolução, os mamíferos perderam os genes necessários para regenerar partes do corpo. Mas isso pode estar completamente errado. Dois estudos recentes sugerem que os mamíferos de fato mantêm a capacidade de se regenerar, mas que ela é bloqueada pelo ambiente em que nossos tecidos vivem. Imagine um camundongo: se a ponta de um dedo dele for cortada, ele pode regenerá-la, mas apenas em condições muito específicas. Os cientistas observaram que, quando uma ferida cicatriza, o tecido fica rígido e repleto de colágeno, como uma parede. Mas, se o ambiente ao redor da ferida for mais flexível e contiver muito ácido hialurônico, as células entram em “modo de regeneração”. E o mais impressionante é que, ao manipular esse ambiente, os pesquisadores conseguiram reduzir a fibrose e aumentar a regeneração mesmo em áreas onde normalmente seria impossível. Não é apenas uma questão de DNA: o contexto é o que manda. Outro exemplo são os girinos. Eles vivem em ambientes com pouco oxigênio e, graças a isso, ativam um gene chamado HIF1A que desencadeia a regeneração. Quando os cientistas reduziram o oxigênio em tecidos de mamíferos cultivados em laboratório, eles também começaram a apresentar reações precoces de regeneração. O oxigênio funciona literalmente como um interruptor biológico: com muito oxigênio, as feridas cicatrizam; com pouco oxigênio, as células tentam se reconstruir. E ainda há mais: o oxigênio influencia a forma como o DNA é “lido”, ativando ou silenciando genes regenerativos por meio de alterações epigenéticas. Há uma cena inesquecível: um pesquisador observa como, ao se alterar apenas o ambiente químico de um tecido, o destino da ferida muda radicalmente. O que parecia ser uma lei da natureza — os mamíferos apenas cicatrizam, enquanto outros animais se regeneram — agora parece ser mais uma questão de contexto. E o que isso significa para nós? Que talvez não sejamos tão limitados quanto pensávamos. Se aprendermos a controlar o ambiente tecidual — a rigidez, a composição, o oxigênio —, poderemos, um dia, possibilitar uma regeneração muito mais poderosa em humanos. Até o momento, ninguém conseguiu fazer com que uma pata inteira crescesse em um camundongo, mas os primeiros passos foram dados para modificar a cicatrização e tratar doenças nas quais a reparação falha, como o diabetes. Há uma frase do médico Lewis Thomas que resume isso: “Somos profundamente ignorantes sobre a natureza”. O que pensávamos ser impossível pode estar apenas esperando o contexto certo. Portanto, da próxima vez que você ouvir que a biologia humana tem limites fixos, pense que, pelo menos em parte, eles são negociáveis. A verdadeira diferença entre cicatrização e regeneração está no ambiente, não no DNA. Se isso fez você ver as feridas de outra maneira, no Lara Notes você pode marcar com I'm In — é muito mais do que uma curtida: é a sua forma de dizer que agora essa ideia pertence a você. E, se você acabar contando essa história de salamandras, oxigênio e cicatrizes para alguém — seja em uma conversa à mesa ou no metrô —, no Lara Notes você pode registrar isso com o Shared Offline: assim, essa conversa não se perde. Esta história foi publicada originalmente no The Conversation. Você economizou cerca de oito minutos de leitura.
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