Samuel Huntington está se vingando
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O retorno das falhas civilizacionais: o mundo de Huntington assume o centro do palco.
Imagine estar em uma encruzilhada, não apenas do destino de uma nação, mas da própria arquitetura da política global. A ordem mundial liberal, construída sobre o otimismo e os ideais após a Guerra Fria, está desmoronando diante dos nossos olhos. A esperança de que as nações se unissem sob regras, valores compartilhados e a mão firme da gestão tecnocrática está desaparecendo, sendo substituída por um mundo onde a identidade, o poder e o orgulho civilizacional impulsionam as decisões.
Este momento não é único — a história é pontuada por mudanças sísmicas. Em 1919, o mundo tentou proibir a guerra e, em 1945, reimaginou a paz por meio de instituições como as Nações Unidas, apenas para ver a rivalidade nuclear dividir o mundo novamente. Depois de 1989, o colapso do Muro de Berlim anunciou um momento unipolar dominado pelo Ocidente. Os pilares dessa ordem eram claros: as fronteiras eram sagradas, a soberania permanecia firme, exceto diante da atrocidade, o comércio nos uniria e as instituições legais resolveriam as disputas. No entanto, com o passar dos anos, surgiram rachaduras, que agora se tornaram abismos.
No centro da batalha intelectual durante a última grande reorganização, havia duas visões. Uma delas era a visão otimista: à medida que a democracia e o capitalismo se espalhassem, a própria história terminaria em um consenso monótono, mas pacífico, onde as únicas batalhas restantes seriam sobre as preferências do consumidor e questões técnicas. Mas a outra visão, mais sombria, alertava que, à medida que as antigas lutas ideológicas desapareciam, novos conflitos surgiriam ao longo de linhas profundas e antigas: as próprias civilizações.
As civilizações – aquelas comunidades vastas e vagamente definidas, ligadas por linguagem, religião e cultura – sempre borbulhavam sob a superfície, argumentou Samuel Huntington. Ele previu que o futuro não seria uma aldeia global harmoniosa, mas uma colcha de retalhos de estados civilizacionais lutando por poder e respeito, com interações marcadas por suspeita, rivalidade e, às vezes, hostilidade aberta. As linhas de frente não seriam necessariamente nações, mas as linhas de falha onde as civilizações se encontram: Ocidente versus mundo islâmico, eslavo-ortodoxo versus ocidental, confucionista versus hindu e assim por diante.
Por um tempo, isso pareceu absurdo. O mundo, em sua maioria, seguia as regras liberais, mesmo que a contragosto. Mas, na última década, a maré mudou. Líderes poderosos agora definem abertamente suas nações como entidades civilizacionais. A Rússia justifica suas ações na Crimeia como um retorno à sua esfera histórica e cultural. A liderança da Índia abraça uma identidade hindu para o Estado, enquanto a China afirma com confiança seus valores únicos, rejeitando a universalidade do liberalismo ocidental. Até mesmo os Estados Unidos, que já foram os campeões da velha ordem, agora flertam com a retórica e as táticas da política civilizacional.
O sonho de um consenso liberal universal entrou em colapso. Em vez disso, nos encontramos no mundo que Huntington previu: um terreno mais acidentado e imprevisível, onde a crueldade e a assertividade são recompensadas e onde as regras educadas do passado são facilmente deixadas de lado. A era do tédio asséptico e burocrático acabou. Em seu lugar, estamos testemunhando o retorno da história — confusa, apaixonada e repleta de perigos.
A vingança de Huntington não é apenas sobre quem estava certo em um debate acadêmico. Trata-se das forças que agora moldam nossas manchetes e nossos futuros. O mundo é mais uma vez definido pelo orgulho civilizacional, pela rivalidade e pelos limites rígidos da identidade. E, nesta nova era, são os ousados, não os ordeiros, que estão definindo o ritmo.
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